A afirmação, quase um mantra, ganha sentido na fala de Pedro Lima, jovem criado pela mãe manicure, o avô pescador e a avó empregada doméstica, e que nesta segunda-feira comemora seu aniversário de 18 anos na Inglaterra como uma das maiores promessas do futebol brasileiro.
Chamado pela imprensa europeia de “herdeiro de Cafu”, o lateral-direito revelado pelo Sport é o mais novo reforço do Wolverhampton, clube da Premier League, com o qual vai assinar contrato de cinco anos.
Tudo vem acontecendo muito rápido na vida de Pedro Lima. E em superlativo. Dos primeiros chutes em uma bola, na quadra a poucos metros da casa de número 283, em Cabedelo, município da Região Metropolitana de João Pessoa, até se tornar a maior venda do futebol do Nordeste, em uma negociação de 10 milhões de euros (R$ 60 milhões), se passaram apenas dez anos.
Quando tinha apenas oito, o menino Lima já chamava atenção em uma escolinha de futsal em Cabedelo e logo passou a treinar no Esporte Clube Meninos da Paraíba, na capital, onde permaneceu até os 15, acumulando medalhas e troféus como destaque individual nas competições que disputava. Hoje são ao menos 70 prêmios guardados com carinho na casa número 283 onde ainda moram os avós.
Do “Meninos da Paraíba” até o Wolverhampton: a trajetória de Pedro Lima
– A gente viu ele em uma escolinha entre os outros alunos e já demonstrava um grande potencial. Mas teve todo trabalho de formiguinha para fazer o Pedro um grande atleta. Ele tinha muito talento e foi evoluindo a cada treino, jogo e competição. E aquele garoto hoje é um menino diferenciado no meio dos profissionais – conta o professor Rudinelly Diógenes, primeiro técnico de Pedro Lima.
“Ele sempre foi forte, principalmente no um contra um. A parte física dele também sempre foi boa, então o que a gente precisou melhorar na parte coletiva, mas ele sempre foi o jogador que está demonstrando ser”, completou Paulo Mendonça, técnico do lateral, dos 11 aos 15 anos.
Lances de Pedro Lima quando jogava futsal em João Pessoa
Porta fechadas nos gigantes e treino em aldeia indígena
Antes de embarcar para a Inglaterra, Pedro Lima visitou os antigos professores e amigos do Meninos da Paraíba. Deu conselhos e contou a sua história para garotos da mesma idade com a qual chegou no clube. E uma fala chamou atenção.
“Eu levei muitos nãos. Se não fosse aprovado no Sport, iria parar”
Sempre se destacando, seja no futsal ou no futebol, o que era brincadeira aos poucos foi se transformando em coisa séria. E ai entra outro personagem fundamental na história do lateral: Renato Guimarães, que além de ter sido o responsável por levá-lo ao Meninos da Paraíba viria a ser o seu maior incentivador e futuro empresário.
Apostando no talento de Pedro, Renato começou a levá-lo para testes em grandes clubes do futebol brasileiro, como Fluminense, São Paulo, Bahia e Flamengo. Mas por motivos diversos, os dois sempre acabavam retornando para João Pessoa. Foi durante esse período que Pedro, que até então atuava como volante, passou a jogar na lateral.
– Quando ele não ficou no sub-15 do São Paulo ele ficou triste, querendo desistir. Foi quando eu sugeri mudar de posição. No começo ele não queria, mas disse que ele era habilidoso, sabia marcar, então iríamos treinar. Foi quando veio a pandemia – recorda Renato.
Para não abandonar o sonho de se tornar jogador e disposto a se adaptar a nova posição, Renato passou a levar Pedro Lima para treinar em uma aldeia indígena, localizada na cidade de Condé, na Grande João Pessoa, em pleno período de confinamento.
– A gente ia para a aldeia e treinava durante a pandemia. Todos os dias pegava ele em casa e levava para treinar. Quando houve um período em que as atividades voltaram ele foi para uma avaliação no Bahia, já como lateral, e terminou passando. Mas depois a pandemia voltou a fechar tudo de novo – lembrou Renato, que além de empresário passou a ocupar um papel vago na vida de Pedro, o de pai.
– Tudo o que a gente passou foi muito difícil. Mas Deus arrumou um anjo na vida que hoje é o empresário dele, que sempre fez tudo pelo meu filho. Além de empresário é um pai que Pedro não teve. Se fosse para depender de mim não ia ter condições – conta, emocionada, a mãe Micheline da Silva Cardoso.
Metas atingidas e dois anos mágicos
Finalmente, com 15 anos, Pedro Lima foi para o Sport. Era a primeira das muitas metas que traçou para si. E que foram, uma a uma, sendo atingidas.
“Quando eu tomei a decisão de levá-lo para o Sport todo mundo me chamou de louco, dizendo que ele tinha potencial para mais. E eu falava para essas pessoas: ‘quem não é visto, não é lembrado’. Ele precisava jogar para dar um salto mais alto”, recordou Renato.
Modo carreira: após cinco meses, Pedro Lima vira negócio recorde
E em pouco menos de dois anos, Pedro Lima se destacou tanto nas categorias de base do clube pernambucano que acabou sendo convocado para disputar a Copa do Mundo Sub-17, em outubro do ano passado, sendo titular nos cinco jogos da seleção brasileira na competição. Em um piscar de olhos, passou a ser observado por gigantes do futebol mundial.
O próximo objetivo era subir para o elenco profissional do Sport e ser titular. Na atual temporada, sob o comando do técnico argentino Mariano Soso fez 26 jogos, marcou dois gols e foi campeão pernambucano. Próximo passo, a Europa.
Após ser monitorado in loco por observadores do Manchester City e Liverpool, entrar na mira do Real Madrid e ter a venda encaminhada para o Chelsea, o Sport acabou acertando a ida da sua joia para o Wolverhampton por cerca de R$ 60 milhões, a maior transação da história de um clube do Nordeste, superando com sobras a antiga marca, que pertencia a venda do Jhoanner Chávez, do Bahia para o Lens, da França, por RS 25,7 milhões, no início de junho.
Mais do que pela questão financeira, a escolha pelo Wolves se deu por planejamento de carreira. Caso fosse contratado pelo BlueCo, grupo que controla o Chelsea, Pedro iria inicialmente ser emprestado para o Strasbourg para disputar o Campeonato Francês, uma vez que ainda não possui credenciais para obter a licença para disputar a Premier League.
Já no Wolverhampton, o lateral será uma das quatro exceções do clube à regra de pontuação para conseguir o visto de trabalho na Premier League. Com isso disputará um campeonato muito mais observado e valorizado já em seu primeiro ano no futebol europeu.
Olho no futuro, mas sem perder as raízes
Faz parte da natureza humana fazer planos. Ainda mais quando se tem apenas 18 anos. E Pedro Lima sabe bem os próximos passos que pretende dar.
Ser titular no Wolverhampton, disputar a Copa do Mundo Sub-20 do próximo ano, no Chile, chegar à seleção brasileira principal e por fim, ser convocado para a Copa de 2026. Quem acompanha o jovem lateral desde a infância não esconde a convicção que tudo isso se tornará realidade.
“O que a gente vê e torce e que ele seja o nosso camisa dois na Copa do Mundo. E eu acho que o sonho está mais próximo”, projeta o técnico Paulo Mendonça.
“Eu falei para ele: ‘em 2026 você vai estar lá na Copa e a gente vai estar torcendo, e ele disse “eu creio mamãe, eu creio”, disse dona Micheline.
E qual seria o conselho a ser dado para o Pedro Lima do futuro? Essa, o próprio Pedro Lima do presente, com 18 anos recém completados, responde.
– Que ele nunca perca a sua essência. Que seja sempre humilde, um cara de paz, sem querer guerra com ninguém. Que ele seja feliz jogando futebol e levando esse jeito brasileiro para dentro de campo.
Que venha o futuro então.
