Hunos do século 20
Como espectadores, 80 anos depois do início da Guerra, já estudamos o assunto na escola, vimos diversos filmes que retratavam o tema. De “A Noviça Rebelde” aos filmes adultos que ganharam o Oscar, a insanidade liderada por Hitler foi retratada por todos os ângulos possíveis. Mas sempre há uma desconfiança no ar de como alguns homens promoveram a barbárie daquela forma. “Um punhado de homens maus podem convencer uma nação de outros homens comuns a fazer coisas ruins”, diz um dos historiadores de “Hitler e o Nazismo”.
Shirer, morto em 1993, recebe uma voz programada por inteligência artificial e narra parte de seus escritos nos episódios: “Se mais gente tivesse realmente lido o livro de Hitler em que ele descreve os estapafúrdios ideais nazistas, menos teriam aderido”, fala sobre a obra que teve 7 milhões de cópias impressas. Se mais gente lesse outras coisas que não fossem fake news, a gente estaria também em outro nível do debate.
Há trechos impressionantes como o interesse dos líderes em abastecer os soldados de álcool, para que pudessem suportar as horas de extermínio aos judeus pré-criação dos Campos de Concentração. Soldados alemães são vistos como humanos, as crianças judias que morrem com tiros na cabeça enquanto abraçam seus bichos de pelúcia não são. Dia desses, em um evento, escutei alguém em uma mesa defender a aniquilação nas favelas brasileiras e falar sobre como é difícil para a polícia protagonizar esse extermínio de “bandidos que são bons mortos”. O paralelo me arrepia a espinha. “Todo mundo tem dentro de si a possibilidade de ser ruim ou bom”, diz o documentário.
Hitler apanhava do pai, como quase todo mundo que foi criança no século passado. Tinha uma carreira de artista frustrado, como quase todo mundo que quer viver de sua arte, mas não foi dotado de grande talento. Achou então, na juventude, que realmente poderia se tornar um líder político. Dá para se alongar por horas a discutir o cenário alemão e europeu nas primeiras décadas de 1900, mas tudo isso está na série. A questão é que ali surgiu uma ideologia que desprezava outras etnias. Se em Viena, onde Hitler vivia até então, se acreditava que os alemães eram superiores aos outros, Hitler via a si como alemão. A partir daí, criou-se uma crença de que os judeus iriam destruir os pequenos empresários e trabalhadores, que o comunismo invadiria a casa de todo mundo — nada do que você não tenha visto muito recentemente por aqui.
A Europa hoje
A conversa me remete a um texto de Cora Ronái, que li recentemente, sobre o impacto da eleição francesa no clima europeu. Com uma Eurocopa em curso na Berlim que já foi de Hitler, uma Olímpiada por vir na Paris inflamava pela polarização, tudo parece um caldeirão efervescente no continente um século depois dos primeiros discursos do ditador austríaco que subia em cadeiras em cervejarias e impressionava pela retórica — note que não necessariamente pelo conteúdo, mas pela maneira como dizia as coisas.
